Agenda: fotografia e cinema

Duas iniciativas em destaque esta semana, a não perder: a sessão de Homenagem a Baptista-Bastos na Cinemateca, já esta quarta-feira às 19h00, e a abertura da exposição Fernando Guerra: Raio X de uma prática fotográfica, na Garagem Sul do CCB, que estará patente até ao dia 15 de Outubro.



Baptista-Bastos (1933-2017), jornalista, cronista e escritor sobejamente conhecido, cruzou-se cedo com o cinema quando assinou a coluna de crítica “Comentário de Cinema” n’ O Século Ilustrado, de que foi subchefe de redação aos 16 anos. A sua cumplicidade lisboeta com Fernando Lopes, com quem colaborou na RTP e de quem era amigo chegado, confunde-se no entanto com as suas incursões no cinema português. Sobre ela, escreveu o próprio em 1996 para o catálogo da Cinemateca Fernando Lopes por Cá, “Dissertação sobre o Ofício da Amizade”. Vale a pena lê-lo, sobre a amizade, o cinema, a experiência de BELARMINO, em que Lopes o filmou a entrevistar Belarmino Fragoso. “[…] O nosso ‘gentleman’s agreement’ não exigia total aceitação das ideias de cada qual; mas implicava, pelo menos, a sua compreensão e discussão. Deixando-se de compreender e de discutir, a validade da união tornava-se ambígua e inútil por insubstancial. Éramos quantos? Fomos todos. [….]”. É com BELARMINO e AS PALAVRAS E OS FIOS, de Fernando Lopes, que evocamos Baptista-Bastos, na próxima quarta-feira, numa sessão de homenagem na Sala M. Félix Ribeiro, às 19h.



A fotografia de arquitetura ganhou, com o novo milénio, uma preponderância exponencial na relação dos arquitetos com a sociedade. O escritório FG+SG tem assumido os desafios da mediatização da arquitetura, sendo hoje uma prática fotográfica premiada e reconhecida internacionalmente. A afirmação progressiva de Fernando Guerra tem acompanhado a produção arquitetónica contemporânea e as suas reportagens fotográficas, difundidas a uma escala global através da plataforma virtual Últimas Reportagens, constituem um ponto de vista privilegiado sobre a arquitetura de hoje. Por outro lado, a sua prática fotográfica responde à evolução técnica do campo da fotografia nas últimas décadas, marcada essencialmente pela afirmação dos novos meios digitais. Esta exposição apresenta o trabalho autoral de Fernando Guerra atravessado por uma cartografia da atividade do escritório FG+SG, convocando o seu arquivo de imagens e evidenciando os seus processos de produção. Mostrando a obra fotográfica e os seus modos de fazer, a prática de Fernando Guerra é assim exposta como que submetida a um Raio X.

Dos algoritmos enquanto construtores de mundos


Imagem: Javier Jaén.

No dia 19 de Dezembro de 2013 o conhecido blogger Jason Kottke decretava a morte dos blogues, sinalizando o declínio social e mediático da blogosfera perante a ascenção das redes sociais.

O aparecimento das plataformas globais de comunicação em rede, tais como o Facebook ou o Twitter, ditou muito mais do que o ocaso do fenómeno blogue. Mais do que a sua perda de relevância enquanto lugar de produção de conteúdos, até aí com grande expressão nos agregadores de informação da rede, estava em causa o declínio do formato cronológico invertido que se havia tornado quase universal na internet partir de 1997, em benefício da adopção de algoritmos automáticos de selecção de conteúdos.
Esta alteração de paradigma viria configurar uma profunda revolução na forma como nos relacionamos com a informação no mundo online. Neste novo ecossistema da internet os conteúdos são valorizados sem interacção humana directa tendo por base um grande conjunto de variáveis: o número de “gostos”, comentários e partilhas de uma publicação, mas também inúmeros factores de selecção e quantificação só conhecidos para os proprietários destas plataformas.

Nesta paisagem corporativa da comunicação global sistemas complexos de análise de dados categorizam os utilizadores definindo o seu perfil específico, seja a partir das coisas que escrevem, gostam e partilham, mas também a partir da rede de amigos que construíram, das páginas que subscrevem e até dos sítios que simplesmente visitam (onde o perfil da rede social seja usado como forma de registo ou identificação).
Sendo capazes de estabelecer um retrato particular de cada utilizador, abrangendo campos muito diversos do seu universo de interesses, as redes sociais conseguem também oferecer uma experiência de utilização específica, diferente para todos e dedicada a cada um de nós. Desta forma, os algoritmos tornaram-se muito mais do que meros auxiliares de selecção e valoração de conteúdos num mundo saturado de informação. Em boa verdade os algoritmos são agora verdadeiros construtores de mundos, capazes de fabricar bolhas individuais onde vemos cada vez mais aquilo que queremos ver mas onde nos é filtrada a diversidade da realidade exterior. Trata-se de um fenómeno sem precedentes cujas implicações culturais à escala global são ainda desconhecidas e difíceis de prever.

Tendo presente este cenário emergente torna-se particularmente preocupante verificar que a maioria dos utilizadores das redes sociais – mais de 75% no caso do Facebook – desconhece que os “murais” de leitura são automaticamente filtrados por algoritmos e apenas uma pequena minoria sabe utilizar os mecanismos de edição dos parâmetros de visualização. Está em causa não apenas aquilo que nos é dado a ver mas também as publicações que nos são ocultadas segundo critérios que desconhecemos e sobre os quais não dispomos de qualquer possibilidade de escrutínio.
Temos assim que a este desconhecimento generalizado se soma a opacidade que as plataformas de social media assumem relativamente ao modo como processam a informação pessoal e social dos utilizadores. Afinal, apenas o Facebook, e mais ninguém, sabe como o seu algoritmo escolhe as “melhores histórias” e oculta o que não nos quer dar a ver.

O que está em causa na transformação profunda que teve lugar na internet na última década é um grave abandono do factor humano na curadoria do conhecimento sobre o mundo que nos rodeia. Vivemos rodeados de filtros digitais que nos proporcionam “redes egocêntricas” e nos gratificam a cada passo. Se os blogues eram um deserto, as redes sociais são um laboratório de optimização de interacções. Eis o último estágio do capitalismo aplicado à nossa vida social: um poderoso sistema de estímulos que proporciona “gostos” instantâneos e partilhas fáceis, mas que oculta os mecanismos, os motivos e os interesses que estão por detrás do “mural” que coloca em frente aos nossos olhos.

O estranho caso de Salvador Sobral




Alguém que começa e acaba o dia com uma máquina ligada ao coração. Com data marcada para uma operação que decidirá a vida inteira e onde, mesmo que tudo corra bem, não deixará de prevalecer a incerteza de tudo o que virá depois. Presumo que lhe reste uma de duas atitudes: ou se entrega à depressão ou brinca com tudo isto.

O Salvador parece ter escolhido a segunda opção. Estranha ironia que o reconhecimento do público, a celebridade e a fama sejam o destino desejado de quase todos os artistas, ou de todos nós. E ei-lo chegado tão jovem a esse lugar raras vezes atingido com a lucidez implacável que não deixa de assinalar o metrónomo que lhe auxilia o bater do coração.

Que estranho e mágico lugar deve ser a vida do Salvador Sobral. Que estranho lugar será esse, onde os dias mais felizes da tua vida podem ser também os piores dias da tua vida. Antes de brincar com a sua frágil humanidade cantava as palavras da Joni Mitchell, que estás no meu sangue como vinho sagrado, tão amargo, tão doce.

Hão-de existir sempre aqueles que estão prontos a ceifar os artistas num momento de vulnerabilidade. Não percebem que os artistas são aqueles que oferecem sempre o que têm de mais frágil, aquilo que todos os outros, todos nós, escondemos do mundo. Venham de lá as hordas indignadas, venham de lá com os vossos escândalos. São a espuma de coisa nenhuma.

O mar é lá longe.

Tatiana Bilbao: The House and the City



A Harvard Graduate School of Design tem vindo a partilhar um conjunto de conferências que vale a pena acompanhar, merecendo destaque a palestra de Kenneth Frampton sobre a arquitectura contemporânea nos países com economias de mais rápido crescimento, em particular a China.
No vídeo acima podem assistir à recente apresentação de Tatiana Bilbao, arquitecta sediada na cidade do México, dando a conhecer de forma detalhada o seu processo de trabalho, do entendimento do lugar ao cuidado com a materialidade dos processos de construção, procurando criar espaços humanizados capazes de auxiliar o desenvolvimento cultural e económico das comunidades em que se inserem.

”The House and the City”, conference with Mexican City based architect Tatiana Bilbao for The Harvard Graduate School of Design. Tatiana Bilbao, through the work of her multicultural and multidisciplinary office based in Mexico City, attempts to understand the place that surrounds her and to translate its rigid codes into architecture. As a reaction to global capitalism, the studio aspires to regenerate spaces in order to humanize them and to open up niches for cultural and economic development.

Arquiteturas Film Festival +



Arquiteturas Film Festival
Começa hoje a quarta edição do Arquiteturas Film Festival Lisboa, uma mostra internacional de filmes documentais, experimentais e de ficção sobre a temática da arquitetura. O programa completo pode ser descarregado aqui. Para acompanhar até ao dia 16 de Outubro.



Esquissos de 21 arquitectos em exposição no Museu Nacional Soares dos Reis
My Own Private Phosphenes – Patrimónios Imaginados é uma exposição dedicada à importância da manualidade do desenho na arquitectura, dando a conhecer esquissos de arquitectos como Adalberto Dias, Álvaro Siza Vieira, Raúl Hestnes Ferreira, Alexandre Alves Costa, Gonçalo Byrne, João Luís Carrilho da Graça, José Mateus e Manuel Aires Mateus, entre outros. Para ver no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, até 31 de Outubro.



Primeiro debate do novo projecto Jornal Arquitectos
Os grandes eventos internacionais são plataformas de visibilidade que geram debate, prestígio e criam novas oportunidades concretas de trabalho àqueles convidados a expôr. Após a festa, ficam contactos e novas dinâmicas que extravasam a dimensão cultural da arquitectura e que, desejavelmente, podem criar oportunidades para novos projectos de arquitectura.
Debate com o tema Após a festa: os novos projectos, promovido pelo Jornal Arquitectos, no Centro Cultural de Belém, sala Maria Helena Vieira da Silva, às 17h00 do dia 15 de Outubro.



Entre Vizinhos – Encontro no Bairro da Malagueira
Conversa à volta do projecto de Álvaro Siza e filme Bonjour Tristesse, Berlim de Cândida Pinto. Com a moderação de Nuno Ribeiro Lopes, arquitecto e gestor do plano da Malagueira, e a presença de Brigitte Fleck, autora do livro Malagueira, Alvaro Siza’s Legacy, José Russo, presidente da Junta de Freguesia, a jornalista Cândida Pinto, autora da série Vizinhos, Nuno Grande e Roberto Cremascoli, curadores do Pavilhão de Portugal. Na Associação Santa Maria e Fontanas, às 18h00 do dia 21 de Outubro.



O Que É Aquele Tempo? Exposição A TUA CASA / Atelier dos Remédios
O que é aquele tempo? É uma memória do passado recente, nos anos em que os arquitetos foram contratados para pensar criativamente e projetar de forma inteligente. Fomos incentivados pelos clientes para contemplar soluções com fantasia. Também fomos capazes de aplicar o nosso conhecimento para criar experiências de habitar únicas. Por todas estas razões, o Atelier dos Remédios mostra dois trabalhos d’aquele tempo na sede da OA, que abordam temáticas e escalas diferentes. Através da apresentação de Moradia Monte do Córrego e da E.S. Rainha Dona Leonor (prémio Valmor 2011, ex-aequo), quer pela nossa produção, quer pelo olhar de outros, gostaríamos de introduzir tanto a narrativa, como as ambições criativas do escritório, para o público. Acreditamos existirem valiosas lições a serem aprendidas a partir do nosso passado recente. Com “O que é aquele tempo?“ propomos reflectir sobre o desaparecimento da poética do espaço da nossa disciplina com a mudança no interesse do mercado, e sobre a necessidade de recuperá-la para a arquitectura, apesar das circunstâncias actualmente desfavoráveis.
Para ver na Sede Nacional da Ordem dos Arquitectos, em Lisboa, até ao dia 26 de Outubro.



Modern Masterpieces Revisited
A exposição «Modern Masterpieces Revisited» de Luís Santiago Baptista, comissariada por Bárbara Silva, apresenta um conjunto de imagens graficamente manipuladas que colocam em confronto obras da arquitectura moderna com o actual contexto social e político. A exposição inaugurou no passado dia 1 de Outubro e continuará patente na Circo de Ideias até 5 de Novembro.



Exposição Habitar Portugal 12-14 em Évora
Destaque final para a Exposição Habitar Portugal 12-14 que continua no Fórum Eugénio de Almeida, em Évora, até ao dia 30 de Outubro. No próximo dia 27 terá lugar mais uma conversa à volta das obras em destaque na exposição. Antes do debate será possível visitar as obras com a presença dos arquitectos Aires Mateus, Francisco Barata, José Carlos Cruz e Cândido Chuva Gomes. Um resumo do programa está disponível aqui.